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domingo, 11 de dezembro de 2011

Crônica de Domingo: Doze Dezembros - Fernanda Pinho

Chega dezembro e as festas pululam de todo canto. Tem festa de fim de ano da firma. Amigo oculto da turma da faculdade. A ceia com a família. O jantar beneficente. Os convites chegam em atacado. Provavelmente muito mais do que se estivéssemos, por exemplo, em maio. A impressão que tenho é a de que apenas em dezembro - quando existe a expectativa do fim e também do recomeço - é que temos consciência da finitude da vida. Aquela sensação de "já é natal de novo?" nos cutuca e nos faz cair na real sobre como o tempo está escapando pelas nossas mãos. Muito provavelmente não é por isso, mas acho que é um bom motivo para justificar a grande farra que vira dezembro. Outro dia alguém comentou no Twitter que a impressão que se tem é a de que o que vai acabar não é o ano, mas, sim, o mundo. E é bem isso mesmo. Gastamos o que não podemos. Anuciamos para aqueles que amamos o quanto eles nos são caros. Fazemos festas todos os dias. Mandamos toda e qualquer dieta para as cucuias. Afinal de contas, é tempo de aproveitar. Por que? Porque o ano vai acabar, oras! Mas logo vem outro ano, e, sabe-se lá porquê, entramos no modo monotonia outra vez. Economizando, sabe-se lá porquê. Camuflando nossos sentimentos, sabe-se lá porquê. Ficando em casa, sabe-se lá porquê. Deixando de apreciar comidas, engordativas sim, mas antes de tudo maravilhosas, sabe-se lá porquê. Enfim, sobrevivemos onze meses para viver em dezembro. A sexta-feira dos meses. Sabe o que eu quero para 2012? Doze dezembros e nada mais.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Uma Bela Crônica para o Domingo!

O velho na praça

Sentou-se com esforço no banco da praça. Ajeitou-se demoradamente procurando uma posição melhor para as pernas trôpegas. Pernas desobedientes, quase centenárias. Ponta do guarda-chuva fincada no chão, apoiou as mãos no cabo e ergueu com dificuldade a cabeça. Queria ficar assim, altivo, firme, recebendo o sol de rijo na cara barbuda. Cara de Papai Noel. Sol gostoso, quente. Bom para afugentar friagem que se instala em osso velho.
Chuva ou sol, o guarda-chuva preto sempre acompanhando os passeios matinais. Guarda-chuva é menos senil que bengala. E serve bem como apoio. Corpo desobediente. Cansado. Amarrotado. O sol trabalhando energia na carne fria.
Suspirou inquieto. Procurou mais ar. Diabo de pulmão preguiçoso. Quanto ar dando sopa e ele enjeitando. Diabos! Tinha de aproveitar bem aqueles momentos. Encostar, largar o corpo. Mas qual! Andaram reformando a sua praça. Fizeram misérias. Deram fim naqueles bancos acolhedores, escondidos no meio dos pés de beijo. Banco pra, dois, onde ele e a finada esposa sentaram-se muitas vezes. Fizeram planos, trocaram carinhos. Sentaram-se apenas, no silêncio, sentindo a vida. Agora a moda é banco coletivo. Para caber mais gente. Está usando gente amontoada. Mas qual! Ninguém pra se sentar nos bancos. O assento é ruim mesmo, espanta qualquer um. A vida esquisita, corrida, seca, enxota o povo do jardim, desabriga o amor, aniquila o amor.
Que desejo de não mais voltar para o quartinho, na casa da filha. ”O seu cantinho” – diziam eles. Riu irônico… Nada mais tinha de seu. Nem vontade. Todo mundo a mandar, a decidir, a resolver por ele. A fala quase centenária morta no peito. Não se queixava, não! É difícil mesmo conversar com pessoas que escutam pouco. Dá nervoso. Pra quê? E depois, já tivera muita conversa com o mundo, queria agora falar pra si mesmo. E pra finada… Deus a tenha!
Uma bola tonta lhe bateu no braço. Atrás da bola, o moleque. Na boca do moleque, o nome feio gritado para o companheiro. Menino atrevido, sem educação! Nem uma desculpa. Devia estar pensando que ele era uma planta. Atrevido! Tivesse força puxava-lhe as orelhas, dos netos, dos bisnetos, de todo mundo. Era bom ter raiva. Estava vivo, com raiva, tomando sol.
Precisava ir… Já tardava. Hora de voltar para o seu cantinho. Riu irônico: “Seu cantinho”… Nada mais tinha de seu. Só o corpo cansado, amarrotado, custoso de carregar, querendo ficar mais leve, voar, voar… que nem o da finada. Deus a tenha! E aquele mundo encantado, aquela vida escondida bem dentro de sua cabeça, refúgio de pensamentos, de lembranças, de existências. Só ele sabia o caminho…
Custoso levantar. De pé, o olho miúdo piscando repetidamente querendo enxergar melhor, o cabo do guarda chuva apertado na mão… Respirou fundo. Queria guardar a volúpia do ar brincando em volta.
Relutou em começar a caminhada. Medo de não voltar mais à praça. Precisava ficar firme, fazer força para não parecer muito fraco. Andavam falando em proibir o passeio matinal. Velho demais para andar sozinho, o velho sempre sozinho.
Diabos!
Como um sonâmbulo entraria na casa. Sentar-se-ia num canto. A agitação, o vozerio, o latir dos cachorros, a água saindo das torneiras, o barulho dos pratos, o sobe-e-desce escadas, o canto da cozinheira, o cheiro da comida, o toque da campainha, telefone sem parar, barulho de carro chegando, alguém lhe perguntando como ia sem esperar resposta, o olho fechando devagarinho, a fuga para o mundo encantado, seu mundo, bem escondido, do qual só ele sabia o caminho, só ele…
Marília Alves Cunha
Educadora
Uberlândia (MG)
mariliacunha16@hotmail.com

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Por um sorvete

Por João Paulo da Silva

A hostilidade do mundo quase sempre nos obriga a viver numa sufocante solidão. Vivemos como a última gota de uma cachaça barata na garrafa de um Deus mendigo, onde constantemente nos encontramos perdidos e sós, mesmo cercados por algumas centenas de pessoas.

É com tristeza que percebo o quanto o homem se afasta de si mesmo, se distanciando da essência da condição humana, numa crise de identidade que o levará para o vácuo das gargantas dos próprios demônios. Dia desses, contra minha vontade, pude comprovar o que digo hoje.

Infelizmente, para se entrar em um cinema é necessário entrar primeiro no shopping, ambiente extremamente artificial que dificulta bastante o discernimento entre o que é humano e o que é mercadoria. Já era final de tarde quando saí do cinema. Eu tinha ido ver um drama, nada muito cruel que mereça uma comparação com a realidade que nos envolve. Desci pela escada rolante me sentindo meio vazio, desatento e infeliz. De súbito, como se tivesse surgido de dentro do bolso de alguém, um garotinho apareceu em minha frente. Tinha os pés sujos, descalços e usava uma roupinha rasgada. Olhou-me com uma vivacidade que não era a mesma de sua voz minguada, e disse meio suplicante:
- Tio, me paga um sorvete?

Senti como se tivessem me roubado todo o ar dos pulmões, parecia haver uma mão invisível a me apertar a garganta. Talvez fosse a mesma mão invisível que controla o mercado, aquela da qual Adam Smith falou. Devia estar sufocando o menino também, pois ele suplicou novamente:
- Tio, me paga um sorvete?

Respondi sem ter a exata certeza do que dizia.
- Pago, claro que pago.

Dirigi-me com o garoto a um quiosque bem a nossa frente. Era um McDonald’s. Tive um momento de indecisão político-ideológica que logo fora esmagado pelo alvoroço feliz que se instalou no rosto do moleque. Ainda assim era um conflito. Shakespeare diria que eu me encontrava entre a presa e o dragão. Se comprasse o sorvete, estaria contribuindo para o fortalecimento das paredes de nossa angustiante prisão. Se não o comprasse, possivelmente frustraria a miragem de felicidade do menino e ainda o deixaria com fome. Acabei pagando.

As mãos do garoto mal tocavam a parte superior do balcão. O balconista dirigiu-se a mim:
- Pois não?
- Um sorvete pra ele.
- Só um minuto.

Duas senhoras ao lado deviam estar olhando com maus olhos o meu ato, assim como o balconista que também não conseguira disfarçar sua indiferença através de um sorriso malicioso no canto da boca. Aproveitei esse intervalo de tempo para conversar com o menino.

- Onde está sua mãe?
- Em casa.
- E seu pai?
- Também.
- E o que é que você está fazendo na rua?
- Arrumando dinheiro.
- Foram seus pais que pediram?

O garotinho vacilou por um instante, provavelmente pensando no que responder. Acabou balançando a cabeça numa afirmativa.

Eu estava gelado, sentia um misto de desespero e revolta, algo me comprimia o peito. Uma mão. Uma mão invisível. Por estar distraído, não vi quando o segurança do shopping começou a puxar o moleque para fora. Acordado pelo esperneio do menino, intervi:

- Êpa! Pode deixar! Ele tá comigo.

O segurança virou as costas e saiu sem me olhar nos olhos. Muitos se sentiriam poderosos se tivessem feito o que fiz. Eu me senti impotente. Tudo que pude fazer para amenizar a situação foi afagar a cabeça do garoto, que me retribuiu o gesto com um sorriso tímido. Não sei ao certo o que senti, mas posso garantir que não se tratava de piedade.

Paguei o sorvete e o entreguei ao menino, que ainda suplicante me disse:
- Tio, me leva lá fora.

Eu o levei. Antes que ele corresse para se encontrar com seus amigos que o esperavam numa esquina, eu lhe adverti:
- Não tome isso tudo sozinho pra não ficar doente, divida com seus amigos.
- Tá, tio. Tchau!

Fiquei ali parado por uns instantes, não sabia exatamente o que fazer ou sentir. Estava com a cabeça cheia de pensamentos embaralhados, desnorteados, não tinha a exata certeza do que acabara de fazer. Eu deveria me sentir feliz? Deveria me sentir um homem? Um ser humano? Acho que não. Tudo aquilo tinha se mostrado muito pequeno. As relações sociais capitalistas haviam acabado de pagar R$ 2,00 pelo sorriso momentâneo daquela criança. Comecei a ficar um tanto triste, mas não desiludido.

Em meu peito afloraram todos os tipos de sensações possíveis, menos aquela do dever cumprido. Amanhã aquele garoto amanheceria com fome de novo e a angustiante prisão ainda estaria nos sufocando com sua mão invisível, até o dia em que decidirmos amanhecer definitivamente humanos.
 
Fonte:http://ascronicasdojoao.blogspot.com