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domingo, 6 de novembro de 2011

O que diziam sobre o capitalismo era verdade




Numa entrevista para o The New York Herald em 1921, Lenin afirma:

"Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o regime bolchevique fosse derrubado."

O admirável sobre essa propaganda anti-comunista é quão tediosamente similar ela tem se mantido ao longo de quase 90 anos, e quão difundida ela permanece. De qualquer modo, visto que essas panelinhas “de homens muito malvados” foram agora derrubadas e substituídas pelos “governos admiráveis” de “pessoas muito inteligentes”, seria o caso de examinar as condições dos países “pós-comunistas” da Europa oriental.

Num comentário em minha postagem anterior, Marx, satanista?, Tamara chamou-me a atenção para uma pesquisa recente feita na Romênia:

"Só 27 por cento dos romenos afirmam que o comunismo era “errado”, enquanto 47 por cento responderam que “era uma boa ideia, mas mal aplicada” e 14 por cento acham que foi “uma boa ideia e bem aplicada”. Impressionantes 78 por cento afirmam que nem eles nem suas famílias jamais sofreram debaixo do comunismo."

E tudo isso tomou lugar sob aquele ditador perverso e odiado, Nikolai Ceausescu.

Passemos então para a Bulgária, um lugar que conheço muito bem. Num livro recente, Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life after Communism/Perdido na transição: Etnografias do cotidiano depois do comunismo, Kristen Ghodsee observa uma crescente nostalgia pela era comunista. Mas por quê, especialmente em se tratando de um estado supostamente stalinista? Quando o capitalismo foi repentinamente imposto em 1989, uns poucos estrangeiros com boas conexões e uma nova classe de oligarcas e criminosos locais assumiram os ativos que haviam pertencido anteriormente ao estado – aqueles que chamaríamos de “empresários”. A gente comum sentiu-se roubada, e muitos perderam seus empregos justamente no momento em que o sistema previdenciário do estado era desmantelado. E será que isso só ocorre na Bulgária? De forma alguma: é o capitalismo em sua forma de sempre.

Tenha em mente que esses são estados que eram supostamente modelos de uma ditadura insuportavelmente repressiva. Não estamos falando, por exemplo, da Iugoslávia, que era com frequência tomada como exemplo de um comunismo mais humano e viável. E enquanto falamos da Iugoslávia: quatro em cada cinco pessoas com as quais falo sobre “a antiga I” me dizem que ela funcionava muito bem.

Prevejo que esta seria a brecha para uma resposta bem lubrificada da direita:

“Claro, é natural que os mais velhos tenham saudade das ditaduras e autocracias, porque essas lhes forneciam algumas certezas na vida, por mais difícil que fosse a situação. Mas podemos com segurança ignorar essas debéis nostalgias dos mais velhos…”

Papo-furado. Conheci russos jovens, nascidos depois ou logo antes de 1989, que erguem copos e brindam à antiga União Soviética. Acrescente-se a isso – como informa-me um colega de Kiev depois de muita pesquisa – que apenas um, talvez dois, dos países do bloco oriental chegaram a alcançar o PIB de 1989 – e isso depois de mais de duas décadas de capitalismo.

Talvez, apenas talvez, as pessoas encontrem de fato valor em coisas como cobertura de saúde e educação universais, desemprego zero, dias de trabalho mais curtos e tempo de sobra para encontrar-se e conversar. Talvez, apenas talvez, economias planejadas sejam de fato melhores. Até mesmo o odiado (na Europa oriental) e ex-anti-comunista Zizek parece concluir que o comunismo era superior. Como ele coloca: tínhamos segurança do berço à sepultura, nunca levávamos nossos governantes a sério e tínhamos o Ocidente mítico com o qual sonhar.

Finalmente, há o que um amigo que morava num desses lugares me disse há algum tempo:

“Quando nos ensinavam sobre o capitalismo na escola, todos achávamos que ele não tinha como ser tão terrível quanto diziam. Achávamos que nossos professores estavam inventando tudo aquilo. Hoje, vivendo sob o capitalismo, entendo que o que eles diziam era verdade.”

Roland Boer, Was life under Communism better?

Fonte: Blog Presoporfora

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Crise terminal do capitalismo? _ por Leonardo Boff

Charge postada pelo Blog
  Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adapatar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.
     A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.
       A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.
O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.
        Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha, o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugual 12% no pais e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.
        A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos paises periféricos. Hoje é global e atingiu os paises centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentitentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamene nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.
         Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente, criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.
          As ruas de vários paises europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.
         Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

Leonardo Boff
é autor de Proteger a Terra-cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record 2010.